KISS: no rastro dos últimos shows, banda deixa seu legado

06/05/2022

De acordo com o dicionário, legado, do ponto de vista jurídico é a “disposição de última vontade pela qual o testador deixa a alguém um valor fixado ou uma ou mais coisas determinadas”. Já por analogia, um legado é um ente querido, bem ou missão confiada a alguém por pessoa que está a ponto de morrer. Assim, nos referimos ao legado como algo – qualquer coisa – que uma pessoa deixa para trás para ser lembrada. Uma marca no futuro, uma contribuição para as próximas gerações. Na última semana, os amantes do bom e velho rock and roll experimentaram um pouco do que se pode chamar de legado, quando da passagem final pelo território brasileiro, do KISS para a realização de 4 shows pertencentes a End of the Road Tour, também conhecida como a despedida do KISS. Esta foi a sétima vez em que a banda pisou em solo brasileiro e desde a sua primeira vinda nos longínquos anos de 1983, o povo brasileiro tem uma forte ligação com a banda. Ao todo foram 20 apresentações em solo brasileiro, como podemos ver no painel abaixo:

O que se pode dizer sobre estes últimos 4 shows? Em primeiro lugar, esta série foi a passagem final da banda em nosso país, uma vez que ao final da turnê, a banda, cujos membros originais já ultrapassaram a casa dos 70 anos de idade e toda a parafernália e indumentária usada já está pesando em seus corpos, já que fazem isso há quase 50 anos, irá se aposentar das turnês no ano que vem, após o derradeiro show a ser realizado na famosa casa de espetáculos novaiorquina Madison Square Garden, na cidade natal da banda. Daqui para frente, para ver o KISS no palco somente indo a algum dos shows que ainda restam antes de turnê chegar ao fim, em 2023. O povo brasileiro, ciente de que esta seria a última vez que poderia vê-los de perto, abraçou a causa e lotou os quatro privilegiados lugares que receberam os shows, nas cidades de Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Ribeirão Preto, totalizando, de acordo com site KISSfaq.com um público conjunto de aproximadamente 150 mil pessoas, entre os dias 26 de abril e 1º de maio. Inclusive, neste último show, em Ribeirão Preto, um inusitado “fã” teve o privilégio de estar no palco com a banda, dividindo o microfone do frontman Paul Stanley, uma esperança, que presenciou o ícone do rock bem de pertinho e ainda ouviu palavras do artista a ela, como podemos ver na foto abaixo e no vídeo que marcou o momento do “encontro” antes de tocarem “Calling Dr. Love”:

Voltando a falar sobre legado, o que se pode dizer sobre este evento que é um show do KISS? Muitos fãs, conseguiram até estar presentes em todas as vezes que a banda por aqui passou, outros, como esta redatora que vos escreve, teve a felicidade de ir a, pelo menos, um show da banda, no meu caso, há quase 10 anos, em novembro de 2012, quando da última passagem do KISS pelo Rio de Janeiro. Mesmo após tanto tempo, pra mim que sou da geração de 1983, ou seja, quase 40 anos dedicados à banda, vê-los ao vivo foi uma das experiências mais marcantes da vida e não só pelo show em si, mas pela grande quantidade de amigos que fiz por causa da banda, durante este tempo. E esse é o sentido do legado, pois a banda se vai, após cumprir o seu papel de forma tão contundente e deixa para trás uma profusão de sentimentos quase eternos nos corações dos fãs. Abaixo vamos conferir algumas das declarações dos fãs não só sobre a despedida em si, mas do legado do KISS, da importância que a banda deixa em seus corações.

A fã Elaine Kist Rezzadori expressou-se assim:

“Falar do KISS é falar da minha vida... Conheci eles com 11 para 12 anos, e confesso que a primeira vez que vi não gostei, mas não conseguia parar de ouvir, aí descobrir que era amor!!!!! Sim... amor... eu enlouqueci meus pais e amigos, arrumei muita briga na escola, minha mãe dizia ‘vai passar’ - hoje viu que não tem cura. End of the road tour foi meu quarto show ao vivo, o primeiro foi Physcho Circus em 1999. A emoção de um show ao vivo é indescritível, é tipo a maior emoção da terra. Enfim, levo o KISS no meu coração e na minha vida!!!! Sou fã Forever!!!!!”

Já o fã Ricardo Lorippe, que completa 57 anos em julho, se declara Kissmaníaco desde 1980, quando tinha apenas 15 anos. Ele diz:

“Meu primeiro LP foi Dinasty, o primeiro show foi em 1983, no Morumbi, São Paulo/ SP. Também fui nos shows de 1994, 1999, 2012, 2015 e 2022. Com muita alegria, desde 2012 tenho a companhia do meu filho nos shows, onde curtimos bastante, porém a turnê de despedida End of the Road World Tour, foi especial pois tinha muita emoção envolvida, nosso objetivo era fica na grade, não foi possível mas ficamos próximos dela. Em relação a nossa sensação, posso tentar explicar que foi uma mistura de alegria, tristeza e gratidão por estar ali com meu filho vendo nossa banda favorita, estamos em êxtase até agora e vamos guardar para a eternidade os momentos que passamos juntos naquele show. Foi surreal!!! KISS Forever”.

Sobre este último show, o fã Dênis Mussato, que assistiu os shows em Porto Alegre, Curitiba e Ribeirão Preto, foi incisivo ao dizer: “Eu vou falar a minha opinião sobre esse show da End of The Road… Foi abusivo… Não precisavam caprichar tanto… Rs”.

Diogo Franco, que é guitarrista da banda Cherrylipz disse:

“Comecei a ouvir KISS aos 8 anos de idade, em 1989, graças ao disco Creatures of the.night... O impacto disso em minha vida não pode ser descrito com palavras. Tudo ali era absurdamente agressivo pra mim, desde o visual chocante, àquele som de bateria avassalador, especialmente “I Love It Loud” e a faixa título. Tive vontade de ‘caçar’ os outros materiais da banda, acompanhando a partir de então. Meu álbum favorito é uma surpresa até mesmo entre os fãs, mas Asylum é algo que beira o sublime de tão agradável. A despedida dos caras (mais uma) me dói mesmo sabendo que talvez nem encerrem de fato. Segundo minha saudosa mãe, o significado de religião é religar a Deus. Por essa razão, eu desde a época acredito muito no seguinte: KISS não é uma banda, e sim uma religião, por isso não se discute. E aos meus filhos, digo que quando crescerem e tiverem idade para escolher sua religião, poderão escolher se preferem KISS com máscara ou sem máscara.” 

Marcel Acêncio, da banda Por Que Perguntas, conta sua história:

Sou um fã tardio do KISS. Meu primeiro contato com o KISS foi em 1988, quando eu tinha sete anos de idade! Uma das crianças da minha sala levou um poster da banda, da época do Creatures of The Night e eu lembro que eu morria de medo deles!!!! Voltei a prestar mais atenção neles por volta de 1996/ 1997, quando li sobre a turnê de reunião, mas confesso que não dava bola, exceto pela música "Forever" que eu adorava. A paixão mesmo, arrebatadora, veio em 1998, quando lançaram Psycho Circus e eu resolvi conhecer a fundo o KISS... Aí fui atingido por um raio e passei a devorar a discografia do grupo... O curioso é que foi a volta da formação original, maquiada, que me vez querer saber mais sobre eles, mas foi a fase sem maquiagem que me vez ouvir o KISS sem parar, principalmente o álbum Crazy Nights... O show do KISS, em São Paulo, no autódromo de Interlagos, em Abril de 1999, foi meu primeiro deles. A experiência não foi lá muito da agradável, pois fiquei muito longe do palco e o local era horrível, com muitos "morrinhos" que deixava a visão desnivelada e um local sem preparo para acústica. Mas, foi o suficiente para que eu me considerasse um "kisseiro"! A coisa foi muito melhor em 2009, na turnê do Alive 35, no sambódromo... Gastei o que tinha para ir na pista premium e ficar perto deles... E a imagem do papel picado, disparado em “Rock'n Roll All Nite”, caindo sobre minha cabeça... Agora, nada se compara à 2012... O Meet and Greet com a banda. Gene me dizendo que o segredo para ser um bom pai era criar os filhos com o coração... Paul me dando os parabéns pela chegada próxima da minha primeira filha... Eric Singer e Tommy Thayer se enrolando para falar "Larissa"... E pensar que eu poderia perder tudo isso, pois havia o risco do nascimento prematuro da minha filha. Mas, Deus me deu dois presentes na vida: conhecer meus heróis num sábado e receber a minha filha no sábado seguinte... Uma semana separou duas das maiores emoções da minha vida! Ainda no show de 2012 lembro que quebrei o pau com os seguranças do evento, pois eu havia saído da zona do Meet para ajudar um colega no dia a comprar ingresso na pista premium, e a segurança não deixava eu entrar com meus itens assinados pela banda. A discussão deu certo e junto comigo, vieram mais doze pessoas, barradas injustamente. Vitória Kisseira! Agora, estou prestes a vê-los pela última vez... O KISS ainda tem mais "adeus" pela frente, mas essa é a minha... Sou muito grato por ser um kisseiro, grato pelas amizades que fiz em razão da banda, grato pela boa música, pelas boas lembranças. O KISS é sobre celebrar a vida e isso aprendemos muito bem!”.

O fã e colecionador Paulo de Castro, o Paulão falou sobre a emoção de vê-los nesse último show:

“Eu não ia nesse show. Coloquei na cabeça que eu não veria o fim, porque participar desse fim, seria aceitar que uma parte da minha vida também teria um fim. A tia da minha esposa quis me dar o ingresso de aniversário, ainda em 2019, e eu neguei, disse que não queria, porque não valia a pena. Consegui manter essa postura por quase 3 anos, até que o ingresso e a viagem para Ribeirão Preto caíram no meu colo de presente. Quando chegou o momento do show, todas aquelas ideias prévias foram embora, afinal, um show do KISS é um show do KISS. O espetáculo é indiscutível! "Ah, mas o Paul está dublando", e o que é que tem? É triste? Sim, porque ver o que ele já fez, e ver pessoas falando mal ou tirando sarro, é triste. Não precisava. Mas, já que está acontecendo, que seja "espetacular", como foi. Me lembrei de toda uma história que eu vivi, de shows que eu assisti, de pessoas que eu conheci… Então, vendo por esse lado, esse show foi perfeito!”

Já Alexandre Barros, administrador da Rádio Catedral do Rock, de Petrópolis/ RJ, falou:

“KISS! O que falar? Simplesmente, a primeira banda de rock que ouvi, e já me apaixonei. O primeiro clipe que lembro de ter assistido na minha vida foi o de “Nothing To Lose”. Uma mistura de medo e amor me fez um fã da banda (medo porque eu tinha uns 4 ou 5 anos no máximo). Para mim, foi impossível não querer ser um deles. Com o passar do tempo fui vendo o amor e o carinho com que os caras tratavam os fãs, e isso só me fez amar ainda mais essa que é a minha banda favorita! Tive a oportunidade de ir em três shows da banda, e cada um deles, foi como se fosse o primeiro! ‘ROCK N ROLL ALL NIGHT AND PARTY EVERYDAY!!!’ VIDA LONGA KISS. Vale mencionar que sou muito feliz em ter como amigos Fábio Stanley e os caras da DESTROYER KISS, que me fazem sentir um pouco mais perto dos meus ídolos!”

Essas palavras que lemos dos mais variados tipos de fãs do KISS só corroboram o que é ser fã do KISS, mostra-nos o significado do que é o legado deixado pelo KISS nesse rastro deixado pela banda em quase 40 anos de Brasil, no que se refere a shows, mas remontam há quase 50 anos de história para os fãs mais velhos. Nós, brasileiros amantes do bom e velho rock and roll, fãs da boa música, só podemos agradecer pelo privilégio de termos nascido na época certa, para sermos testemunhas oculares do que é ser fã do KISS. O KISS, ao longo de seus quase 50 anos de carreira, tem influenciado centenas de outros músicos, vários deles tão importantes para a história do rock e o metal, mas que não se envergonham em dizer que também são fãs do KISS, e é isso que é KISS, e isso fica pra sempre, mesmo depois que a última cortina se fechar. Vale lembrar que a End of the Road Tour ainda seguirá, por outros países, rodando o mundo, para a banda também se despeça de milhares de outros fãs ao redor do planeta, e após o derradeiro show, o gran finale, somente as grandes botas, fantasias e as maquiagens serão deixadas pra trás, uma vez que a própria banda admite continuar, apenas sem fazer mais turnês. Afinal, Gene Simmons e Paul Stanley não são homens de desistir, mas que estarão nos palcos até fim de suas vidas. Isso é KISS!!! Gene Simmons, Paul Stanley, Ace Frehley, Peter Criss, Eric Carr, Vinnie Vincent, Mark St. John (o único a não vir ao Brasil), Bruce Kulick, Eric Singer e Tommy Thayer, obrigada por tudo!!!

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