Boletim do JF #05

PEARL JAM ENSAIA BREVE OUSADIA EM GIGATON, MAS NÃO SURPREENDE

Entre as veias punk do Nirvana e metal do Soundgarden, a verdade é que o grunge de Seattle é liderado há muitos anos pela inclinação mais puxada ao rock clássico do Pearl Jam. Desde 2013 sem um álbum de inéditas, no último dia 27/03 o grupo colocou no mercado Gigaton (Universal Music). O disco traz 12 faixas, ao longo de 57 minutos, que foram produzidas pela própria banda em parceria com Josh Evans.

Substituto do velho Brendan O’Brien e escolhido para levar o som do grupo a uma nova direção, Evans integrou a equipe de estúdio ao longo das gravações do álbum Pearl Jam (“Abacate”), de 2006, e trabalhou como engenheiro de som de Chris Cornell durante a turnê do Temple of the Dog (grupo do qual participam todos os integrantes do Pearl Jam) em 2016.

Infelizmente, nem mesmo a torcida dos fãs e a temática ambiental que permeia todo o novo trabalho fez com que a ótima raridade ao vivo “Of the Earth” entrasse no tracklist do álbum. Além de carregar no nome um tipo de unidade que mede o degelo das calotas polares, a capa do disco faz alusão ao aquecimento global e belas imagens de florestas, oceanos e geleiras aparecem nos clipes de todas as canções do álbum lançadas no canal oficial do Pearl Jam no youtube. Segue o caminho para a playlist de clipes completa:

Gigaton abre com o ótimo rock “Who Ever Said”. Aqui, arranjos de teclado, fortes viradas de bateria de Matt Cameron e uma ponte acompanhada por uma melancólica linha de baixo de Jeff Ament são os destaques. Na sequência, “Superblood Wolfmoon” e “Dance of the Clairvoyants”, que já eram conhecidas do público como os primeiros singles do álbum. Com versos bem rápidos cantados por Eddie Vedder, a primeira acelera ainda mais o ritmo no rock. Mike McCready faz um belo solo de guitarra, mas ainda falta algo na canção para ser um grande destaque.

E justamente o que causou estranheza pelo ineditismo, acabou se tornando o ponto de maior relevância do disco. Com versos que falam sobre um futuro que não existe quando se olha para o passado, “Dance of the Clairvoyants”, a primeira faixa disponibilizada ao público em janeiro, mostra o Pearl Jam saindo da zona de conforto e buscando uma ótima sonoridade dançante ao estilo New Wave anos 80. Até o guitarrista Stone Gossard se reinventou e tocou baixo na canção. Seria o dedo de Josh Evans mostrando novos rumos ousados ao grupo? Bom, o que vem na faixa seguinte são influências antigas da banda e principalmente de Vedder, “Quick Escape” (terceiro e mais recente single do álbum) lembra The Who em seu groove de baixo e Grateful Dead na psicodelia dos coros vocais. E assim termina a primeira das três partes do disco, até aqui com potencial interessante.

Pearl Jam em 2020

A sequência intermediária de faixas começa com “Alright”, a canção mais serena e inofensiva do álbum. Amantes de “Strangest Tribe”, raro lado B da banda, vão se identificar com a atmosfera da canção. Democrata de carteirinha e amigo de Barack Obama, Vedder usa a melhor balada do disco (onde todos os músicos aparecem) para disparar seu habitual ataque contra o líder republicano Donald Trump. “Seven O’ Clock  possui toques “dylanescos” no início e tem tudo para ser o novo sing-along nos shows.

Uma levada rock de timbre cru e melodia simples conduz “Never Destination, dando a sensação de já ter ouvido algo parecido nos trabalhos mais recentes. Composta pelo baterista Matt Cameron e tendo participação vocal de Meagan Grandall (banda Lemolo), a agitada “Take the Long Way” não traz inovação, mas finaliza como a melhor faixa na segunda leva de quatro canções. Uma empolgante melodia somada a um forte riff pontuado por efeitos de pedaleira no pré refrão fazem dessa uma ótima música para se ouvir na estrada, com o pé no acelerador. Cumprirá o papel de agitar o público ao vivo.

Mostrando um certo cansaço, a parte final de Gigaton baixa totalmente o ritmo fazendo o álbum perder o punch inicial. “Buckle Up” procura ser uma balada alegre, mas sem o charme e a solidez de outras coisas já feitas pela banda. “Comes Than Goes” e “Retrograde” são canções que parecem pinçadas de Into the Wild. Com estruturas mais acústicas, têm a cara do trabalho solo de Vedder. O destaque do último terço de canções é “River Cross”, que encerra o disco com tom sacro e sussurros em clima espiritual, sem deslumbrar.

Dessa vez o destaque foi a cozinha, Matt Cameron (bateria) e Jeff Ament (baixo) fizeram bom trabalho aparecendo bastante nas composições, mas sem virtuosismos. Aliás, o álbum como um todo é bem direto, sem firulas. Após 7 anos de espera, o 11º álbum da banda trouxe algumas boas canções, mas não surpreendeu. O Pearl Jam, hoje tiozões do grunge, ensaiou uma leve ousadia inicial, mas se manteve em uma zona que seguiu a mesma fórmula e dinâmica musical dos últimos dois trabalhos Lightning Bolt (2013) e Backpacer (2009).


CORONAVÍRUS E TRÊS DICAS MUSICAIS PARA A QUARENTENA

Nas últimas semanas o mundo viu um cancelamento geral de shows, turnês, festivais e outros eventos. Sem o devido controle, o coronavírus extrapolou as fronteiras chinesas e assolou o mundo gerando um inédito LockDown global. Devido à pandemia, o planeta simplesmente parou suas atividades, gerando consequências econômicas terríveis, e a indústria musical e cultural sofre junto.

Com estreias de filmes adiadas, cinemas foram fechados e museus seguiram o mesmo protocolo. Filmagens foram paralisadas e festivais de cinema foram cancelados. As turnês de grades nomes foram canceladas e/ou adiadas. O Metallica, que passaria pelo Brasil no mês de abril, o Pearl Jam, que iniciaria a promoção do novo álbum nos EUA, o Kiss, que está com sua anunciada última turnê da carreira, são apenas três exemplos de bandas gigantes afetadas pela situação atual.

Os mega festivais Coachella, nos EUA, e Lollapalooza, no Brasil, foram remarcados. A grande dúvida é se a programação e line up anunciados inicialmente serão mantidos com a probabilidade do conflito na agenda das bandas e artistas. Outro caso complicado é o de bandas estrangeiras que estão em viagem pelos EUA e, agora com as medidas de quarentena geral, não podem voltar para suas casas.

O mundo inteiro mudou. Com todo esse prejuízo e ostracismo causado pelo coronavírus, deixo três dicas interessantes para esse período de confinamento sem precedentes na história:

Dica 1: Site do Festival de Montreux libera 50 shows de graça

Um dos festivais mais importantes do mundo, o tradicionalíssimo festival de Montreux que acontece na Suíca todo mês de março, liberou 50 shows de sua história para serem assistidos. São apresentações históricas de Johnny Cash, James Brown, Nina Simone, Alanis Morissette, Marvin Gaye, The Raconteurs, Ray Charles, Nile Rodgers & Chic, Phil Collins, Wu-Tang Clan, Simply Red, Carlos Santana, Deep Purple, etc.

Basta acessar https://www.montreuxjazzfestival.com/en/50-concerts-to-stream/  e entrar com o código informado para que surja uma página com todos os shows liberados.

Dica 2: Dave Grohl faz conta no instagram para contar histórias pessoais

Sim, o cara mais legal do rock n’ roll aproveitou o momento de ostracismo e fez o que muitos fãs pediam há tempos: criou uma conta no instagram (@davestruesstories). Mas o líder do Foo Fighters não terá uma conta qualquer. Além de divertido, Dave é um contador de histórias nato. Contar casos acontecidos ao longo de suas três décadas de música é exatamente o que ele prometeu fazer na primeira postagem:

“Estou empolgado por poder compartilhar alguns dos momentos mais ridículos de minha vida com vocês. Fiquem ligados! Lavem a p*rra de suas mãos”.

Sigam, pois é garantia de futuras boas gargalhadas.

Dica 3: Histórias do Rock n’ Roll com o Podcast Arquivo do Rock

Todo sábado às 14h00 o locutor Rafael Ferrara apresenta seu programa “Arquivo do Rock” na Rádio Catedral do Rock 90.1 FM (Petrópolis/RJ). Durante uma hora Ferrara passa a limpo, com diversão e riqueza de detalhes, um tema interessante ligado ao rock n’ roll. O último programa teve como foco cinco mulheres que foram transformadas em músicas. Vale a pena conhecer a surreal história de como Eric Clapton tomou a esposa do amigo George Harrison e a imortalizou em seu maior hit “Layla”.

O programa do último sábado e os temas anteriores podem ser conferidos diretamente em formato Podcast, sigam abaixo:

Deezer: https://www.deezer.com/br/show/839032?utm_source=deezer&utm_content=episode-109456472&utm_term=3193209864_1585496437&utm_medium=web

Spotify: https://open.spotify.com/show/2gFrgAdhRpGF5Q4mWMvaDj


CURIOSIDADE: O SONHO DE “ONTEM” DE PAUL MCCARTNEY

Há pouco mais de 54 anos, os Beatles lançavam no Reino Unido seu single mais distinto dentre os que tinham até aquele momento. Após alcançar o primeiro lugar nas paradas americanas, em 4 de março de 1966, “Yesterday” foi lançada como um EP na Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, acompanhada de “Act Naturally“, no lado A, “You Like Me Too Much” e “It’s Only Love“, essas no lado B. A composição, com teor intimista, de Paul McCartney foi a primeira música gravada por um único integrante da banda e não tinha muito a ver com a imagem e demais músicas dos quatro rapazes de Liverpool.

EP Yesterday

Ainda que McCartney estivesse fascinado com sua criação, Lennon, Harrison e Starr estavam relutantes em aceitá-la. Por pouco não barraram a inclusão da faixa no álbum Help, lançado em agosto de 1965. O mundo perderia assim, simplesmente, a canção mais regravada da história da música popular, com mais de 2000 interpretações diferentes (de Frank Sinatra a Marianne Faithfull), segundo o Guinness World Records (Livro dos Recordes).

Reza a lenda que McCartney dormia na casa de sua noiva Jane Asher e então despertou bruscamente de um sonho. Ele logo correu para o piano, a fim de não perder a melodia que ficara em sua cabeça, e usou um gravador para guardar as notas tocadas. Ainda intrigado pela forma como havia concebido aquela melodia, por cerca de um mês o beatle visitou inúmeras pessoas do mundo da música questionando-os se conheciam aquela sequência de acordes. Somente após se certificar de que não havia cometido um plágio inconsciente, o músico partiu para o desafio de escrever a letra nostálgica da canção durante uma viagem a Portugal.

Manuscritos de Yesterday

Todo o trabalho foi levado por McCartney ao lendário Abbey Road Studios, de Londres, para que George Martin, produtor conhecido como “o quinto Beatle”, pudesse coordenar o processo de gravação. Os outros integrantes dos Fab Four chegaram a testar uma variedade de instrumentos para a canção, porém Martin os convenceu de que deixassem McCartney gravar sozinho tocando sua guitarra acústica.

Na segunda tomada de gravação, realizada em 14 de julho de 1965, nascia a versão definitiva de uma das músicas mais apreciadas de todos os tempos, embelezada, ainda, pela adição de um quarteto de cordas ao longo de seus pouco mais de 2 minutos de duração. Uma curiosa e intrigante história de sucesso e espontaneidade na música que contrasta com os tempos dissimulados atuais.

1965: McCartney tocando Yesterday no Ed Sullivan Show

Equipe de Gravação de “Yesterday“:
Paul McCartney – vocalista, guitarra acústica
Tony Gilbert – violino
Sidney Sax – violino
Kenneth Essex – alto
Francisco Gabarro – violoncelo
George Martin – produtor musical
Norman Smith – engenheiro de áudio

Fábio Lima, um dos maiores violonistas do Brasil, fez uma bela versão fingerstyle de “Yesterday” que vale à pena ser conferida abaixo:


ÁLBUM RECOMENDADO: “THE DARK SIDE OF THE MOON”, DO PINK FLOYD

Os tempos de quarentena e reclusão social também são ótimos para revistar clássicos e comprovar sua magnitude. Em 1 de março de 1973 chegava às lojas de discos um novato de cor preta e com a figura de um prisma sendo atravessado por um arco-íris. Capa sem graça, diriam alguns. Hoje, 47 anos depois, a simples imagem de The Dark Side of the Moon é uma das marcas mais fortes do art rock e, definitivamente, estabeleceu o culto ao Pink Floyd ao redor do planeta.

Embora seja um clássico absoluto, há muitos que ainda hoje consideram The Dark Side of the Moon moderno. Não raro, durante um bate papo com amigos, ouço coisas do tipo: “Cara, botei o Dark Side pra tocar outro dia em casa e ouvi uns barulhos em Us and Them muito loucos”. Ou ainda “Como esses coroas criaram os sons perfeitos daquele disco?”. Há também os que dizem ouvir esse disco exclusivamente com fones de ouvido e luzes apagadas.

David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright nos anos 70

A pedra fundamental para a criação da obra-prima foi uma reunião entre Roger Waters, David Gilmour, Richard Wright e Nick Mason (Syd Barret, criador do Floyd, que explorava temas mais longos e psicodélicos nas canções, já havia deixado o grupo pelo agravamento de sua saúde mental). Nessa reunião decidiram trabalhar na criação de material para um disco mais direto e intimista aos ouvidos do público. O quarteto estava tão focado em tirar o melhor do novo trabalho que até iniciou turnê pelos EUA, Canadá e Europa, tocando todas as músicas do álbum bem antes do seu lançamento. Isso permitiu o amadurecimento e a melhoria das músicas a cada noite, além do seu aperfeiçoamento em estúdio.

Após o lançamento do álbum, foi explorada a sua relação sonora com o filme O Mágico de Oz (The Wizard of Oz), de 1939. Diziam que, ao iniciar, juntos e sincronizados, o filme com volume mudo e o álbum, uma série de correspondências aconteceriam: coisas como vozes femininas na música no momento em que Dorothy (personagem do filme) conversa com a avó, o bater de coração no fim do álbum ocorrendo quando há a cena em que Dorothy tenta ouvir o coração do homem de lata no filme, dentre outras. A lista de coincidências ficou conhecida, e é possível ser encontrada em uma pesquisa pela internet, sob o nome The Dark Side of the Oz. Segue abaixo um ótimo vídeo sobre:

O fato é que o oitavo álbum de estúdio do Pink Floyd, gravado entre 1972 e 1973, no famoso Abbey Road Studios de Londres, revolucionou pelo uso de complicados efeitos sonoros gravados em multicanais, pelos temas existenciais tratados nas letras – como envelhecimento e ganância humana – e pelo tracklist incrível, onde até a ordem sequencial das canções era perfeita para a melhor experiência auditiva da obra. Hoje o álbum figura em 2º lugar na lista dos 200 álbuns definitivos do Hall da fama do Rock, atrás apenas de Sgt.Pepper’s Lonely Heart Club Band dos Beatles.

The Dark Side of the Moon foi um daqueles casos, raros, de sucesso imediato de crítica e público. Um disco que sempre surpreende em uma audição minuciosa, e, melhor do que falar sobre ele, com certeza é ouvi-lo. Uma boa razão para fazer isso hoje é a de que, afinal, não é qualquer um que envelhece bem e consegue completar 47 anos ainda no topo das criações musicais do século XX. Por essas e outras, ele continua merecendo seus ouvidos. Uma ótima playlist com o álbum totalmente legendado em português encontra-se abaixo:

 


Boletim do JF ® é feito por Jorge Felipe Coelho.

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