Boletim do JF #07

Boletim do JF #07

RICHIE SAMBORA: SEM ELE O BON JOVI PERDEU SUA ALMA SONORA

Desde os anos 80 sendo o principal parceiro de composição de Jon no Bon Jovi, ao sair da banda em 2013 alegando querer mais tempo para a família, o guitarrista Richie Sambora não deixou saudade apenas para os fãs. Em entrevista de 2016 ao The Mirror, o próprio frontman Jon Bon Jovi afirmou que por conta da saída do guitarrista seus últimos três anos haviam sido os piores de toda a sua vida, e que ele passou a sentir o peso do mundo em suas costas. Jon novamente deixou claro que sente a falta do guitarrista em conversa de 2019 com a Pollstar: “gostaria que ele estivesse aqui porque fazíamos uma dupla formidável. As nossas vozes eram magia, e ele é uma ótima pessoa, mas as escolhas pessoais dele o levaram para outro caminho”, explicou.

Lembrando que na época do afastamento do guitarrista o Bon Jovi tinha um disco em primeiro lugar nas paradas americanas, Jon afirma que a saída não envolveu brigas e nem foi por razões financeiras. A banda tinha um show marcado e Sambora iria diretamente de uma viagem ao Havaí. Ele ainda avisou a Jon: “quero chegar no dia do show para ter tempo de buscar minha filha e desfazer as malas”. Na noite anterior a apresentação, o manager da banda ligou para Jon comunicando que Sambora havia decidido ficar no Havaí. Ele nunca mais voltou à banda, deixando a ingrata missão de lhe substituir para Phil X.

Sambora e Jon: clássica linha de frente do Bon Jovi

Em 2018, Sambora topou uma reunião com sua antiga banda para apresentar-se e ser induzido no Hall da Fama do Rock N’ Roll. Reencontrou os companheiros de três décadas após 5 anos de separação, contudo não retornou em definitivo. Após a reunião, o guitarrista comentou sobre sua saída da banda:

“A última turnê que fiz com a banda era de 18 meses e meio. Você perde muito de sua vida, cara”, afirmou. Em seguida, explicou o que estava perdendo em sua vida. “Você chega em casa, as coisas mudaram. Divórcio, nascimento, morte. Altos e baixos da vida normal. Pequenas tragédias. Amor, alegria. Você perde todas essas coisas várias vezes em seu modo de incubação. Como disse, não éramos uma banda que tirava muito tempo de férias. Minha filha precisava de mim naquela época, meu pai estava morrendo de câncer, eu estava no meio de um divórcio de merda e arrebentei meu ombro”, disse.

A verdade mais provável é que Sambora tenha descoberto outra necessidade artística. O músico afirmou que tinha vontade de fazer algo sendo o cantor principal, coisa que sentia falta desde as bandas que participou antes do Bon Jovi. Assim, resolveu alçar voo em novos projetos para sua carreira que já contava com três bons álbuns solo: Stranger In This Town, de 1991, Undiscovered Soul, de 1998, e Aftermath Of The Lowdown, de 2012. Em todos os três trabalhos é notória a competência dele como cantor e também que a construção das harmonias, o estilo das melodias e o balanço das canções remetem muito ao som feito pelo Bon Jovi. Observe isso na ótima balada “Hard Times Come Easy”:

Iniciado em 2014, o projeto colaborativo chamado RSO leva as letras iniciais do duo de guitarristas Richie Sambora e Orianthi, namorada do ex-guitarrista do Bon Jovi desde 2013. Foram lançados dois EP’s em 2017 chamados Rise e Making History, além do álbum Radio Free America, de 2018. Com dois guitarristas virtuosos, o som do projeto vai de blues rock até baladas açucaradas ao violão de um casal que trabalha junto. Sambora divide muito bem o papel de vocalista principal e provavelmente mostra um pouco do direcionamento que gostaria de dar a sua antiga e famosa banda.

Sem o antigo guitarrista, em 2016 o Bon Jovi colocou no mercado o álbum This House is Not for Sale sem obter o sucesso de crítica e público de outrora. O disco deixa à mostra o tamanho da ausência de Sambora aumentando o espaço para os teclados e dando passagem para outras dinâmicas bem mais próximas do pop do que do rock. Até bateria e outros efeitos eletrônicos apareceram, pausteurizando cada vez mais o som do grupo que já não andava lá essas coisas nos álbuns anteriores.

Junte o fraco trabalho lançado ao fato de Jon enfrentar críticas por conta de sua forma vocal claramente prejudicada, como foi observado na última edição do Rock in Rio aqui no Brasil, não à toa ele lamenta a perda de seu parceiro. Certamente a principal força motriz e criativa de uma banda que ficou sem sua alma. Além da guitarra inconfundível e dos excelentes backing vocals de sempre, Sambora poderia ajudar ainda mais se revezando como cantor principal nesse momento. Isto é, se a vaidade de ambas as estrelas permitisse um retorno.


METALLICA AFAGA OS SAUDOSOS FÃS BRASILEIROS

O Metallica tentou compensar o fato de ter cancelado as apresentações que faria no Brasil ao longo desse mês de abril e presenteou os fãs com uma coletânea ao vivo exclusiva. Trata-se de Live in Brazil ‘93-‘17 que está disponível digitalmente nas plataformas de streaming.

A compilação traz 18 canções selecionadas entre as muitas apresentações do ícone do heavy metal realizadas em solo brasileiro entre 1993 e 2017. Sobre o presente, assim se comunicou a banda com os fãs brasileiros:

“Nossas agendas estavam reservadas para a nossa 17ª visita ao Brasil desde 1989. Em vez de ficar em casa chateados por não poder passar a noite com todos vocês, pensamos que seria divertido percorrer antigas lembranças e revisitar tudo de bom que fizemos no passado.”

O álbum já abre com uma versão de “Hardwired” retirada do festival Lollapalooza Brasil de 2017, em São Paulo. Dentro do repertório aparece “Master of Puppets”, gravada em 2013 no festival Rock in Rio e a adorada balada “Fade to Black” tocada em uma passagem por São Paulo no longínquo ano de 1993. Confira a capa e o tracklist completo:

  1. Hardwired (Live in São Paulo – Mar 25, 2017)
  2. Master of Puppets (Live in Rio de Janeiro – Sep 19, 2013)
  3. The Four Horsemen (Live in São Paulo – Jan 30, 2010)
  4. The Thing That Should Not Be (Live in Rio de Janeiro – May 9, 1999)
  5. The Unforgiven (Live in São Paulo – May 2, 1993)
  6. That Was Just Your Life (Live in São Paulo – Jan 30, 2010)
  7. The End of the Line (Live in Porto Alegre – Jan 28, 2010)
  8. Bleeding Me (Live in Rio de Janeiro – May 9, 1999)
  9. Sad But True (Live in São Paulo – Mar 22, 2014)
  10. Of Wolf and Man (Live in São Paulo – May 2, 1993)
  11. Moth Into Flame (Live in São Paulo – Mar 25, 2017)
  12. One (Live in Rio de Janeiro – Sep 19, 2013)
  13. For Whom the Bell Tolls (Live in São Paulo – Mar 22, 2014)
  14. Fade to Black (Live in São Paulo – May 2, 1993)
  15. Creeping Death (Live in Porto Alegre – May 6, 1999)
  16. Fight Fire With Fire (Live in São Paulo – Jan 31, 2010)
  17. Nothing Else Matters (Live in Rio de Janeiro – Sep 19, 2015)
  18. Enter Sandman (Live in São Paulo – Mar 25, 2017)

A banda tinha shows marcados em Porto Alegre (Estacionamento da FIERGS), Curitiba (Estádio Couto Pereira), São Paulo (Estádio do Morumbi) e Belo Horizonte (Estádio do Mineirão) entre os dias 21 e 27 desse mês. Devido à pandemia do coronavírus, remarcaram suas apresentações para os dias 14, 16, 18 e 20 de dezembro nos mesmos locais anunciados anteriormente. Estão mantidas, também, as esperadas aberturas de Ego Kill Talent e Greta Van Fleet.


VIVA O ISOLAMENTO: 5 CLÁSSICOS DO GRUNGE EM VERSÕES ESPECIAIS “ISOLADAS”

Devido ao novo coronavírus, a palavra da vez no Brasil e no mundo é “isolamento”, um substantivo masculino que significa o estado da pessoa que vive isolada, que se pôs ou foi posta à parte. Aqui no Boletim do JF, essa palavra certamente vai ganhar agora um significado mais interessante do que conhecemos e observamos atualmente.

Dentre várias opções disponíveis, separei curiosidades sobre 5 clássicos do grunge noventista de Seattle em versões especiais com instrumentos ou vocais isolados. As faixas permitem verificar com maior precisão a pureza das icônicas gravações e até notar aspectos que passavam despercebidos ao ouvir as famosas canções rotineiramente em suas versões tradicionais.

Alçado como o grande nome da sua geração, o Nirvana existia desde 1987, mas somente após a entrada de Dave Grohl em 1991 é que a banda alçou voo e ganhou o mundo com Nevermind. Ouvir a performance furiosa da bateria no hitSmells Like Teen Spirit” é notar que a fama de Dave não é apenas uma herança deixada por Kurt Cobain, pois muito antes de sonhar em liderar o Foo Fighters o jovem baterista era muito criativo atrás dos pratos e elevou o nível do grupo. Confira:

Nomeada em 2009 como a 58ª melhor música de hard rock de todos os tempos pelo VH1, “Interstate Love Song” é minha música favorita do Stone Temple Pilots (STP). Composta pelo baixista Robert DeLeo em 1992, a música nasceu dentro de um quarto de hotel em Atlanta, enquanto a banda estava em turnê. Inspirado por bossa nova, Robert estava tocando acordes em seu baixo quando seu irmão e guitarrista do STP, Dean DeLeo, pressentiu que estava diante de uma grande melodia e insistiu para que Robert mostrasse ao vocalista Scott Weiland. O resto é história!

Confira a linha de baixo de Robert DeLeo, o criador desse sucesso do STP:

Tremendo sucesso do Pearl Jam, “Even Flow” fala sobre um indivíduo sem-teto que é negligenciado pela sociedade. A canção possui uma estrutura melódica e lírica cadenciada. É sustentada em riffs funkeados compostos por Stone Gossard e versos cantados por Eddie Vedder no limite entre a melodia e o texto falado. Nas performances ao vivo desse hit quem brilha é o guitarrista Mike McCready, já que fica solto para improvisar solos e até troca figurinhas com o baterista Matt Cameron.

Se hoje tudo são flores, parece que na gravação em 1991 eles sofreram, como já disse o próprio McCready:

“Nós tocamos “Even Flow” umas 50, 70 vezes. Eu juro por Deus, foi um pesadelo. Nós repetimos aquela coisa várias vezes até o ponto de nos odiarmos. Eu ainda acho que Stone não ficou satisfeito com o resultado.”

Então, confira a versão final das guitarras minuciosamente esculpidas nessa obra:

O Alice in Chains gravou seu maior hit entre dezembro de 1989 e abril de 1990. Quase 30 anos depois, “Man in the Box” foi a segunda música mais tocada da década nas principais rádios do rock do mundo entre 2010 e 2019. O guitarrista e compositor Jerry Cantrell explicou uma curiosidade da gravação que foi a utilização de um talk box para criar o efeito da guitarra. Um talk box é uma espécie de unidade de efeitos que permite que os músicos modifiquem o som de um instrumento moldando o conteúdo da frequência do som e apliquem sons de fala e canto nos sons do instrumento.

Um efeito semelhante a um talk box aparece em “Livin On a Prayer”, hit do Bon Jovi. O músico controla a modificação do som do instrumento “vocalizando” a saída do instrumento em um microfone. Confira uma versão exclusiva que mostra claramente o efeito utilizado por Cantrell:

Lançada como single do Soundgarden em 1991, “Outshined” se tornou um hit instantâneo. O trecho da letra “Estou procurando a Califórnia e sentindo Minnesota” inspirou o título do filme de 1996, Feeling Minnesota, embora o Soundgarden não conste na trilha sonora. Sobre um riff principal que lembra o peso do Black Sabbath, Chris Cornell deferiu uma das suas performances vocais mais fortes e adoradas, transformando a canção em um dos hinos definitivos do grunge.

Confira nessa versão somente as vozes do saudoso vocalista do Soundgarden:


ÁLBUM RECOMENDADO: “HISTÓRIAS E BICICLETAS”, DO OFICINA G3

Sim, o Oficina G3 é uma banda de rock cristã. Sim, essa informação é totalmente irrelevante para quem ouve um álbum de rock buscando primeiramente música de alto nível. Quero dizer que nesse caso específico, qualquer tipo de preconceito que lhe impeça de conhecer o som pesado e melódico do grupo que é ovacionado dentro e fora do meio gospel, só lhe fará deixar de saborear um disco muitíssimo acima da média no cenário do rock n’ roll nacional. Falarei de Histórias e Bicicletas, lançado em 2013 e último álbum de estúdio da banda que está em hiato anunciado desde 2018, mas não sem antes contextualizar esse ótimo trabalho.

O Oficina G3 existe desde o fim dos anos 80 tendo à frente Juninho Afram, reconhecido pela revista “Guitar Player” como um dos melhores guitarristas do país e o único membro original remanescente. A banda atuou por subgêneros do rock e até teve sua fase pop nos anos 90, na qual PG era o vocalista principal do grupo. Com a saída de PG em 2003, Juninho assumiu os vocais principais em novo trabalho com influências de rock progressivo. O líder do Oficina G3 sempre buscou uma banda que pudesse fazer um som mais pesado, com músicos proficientes e versáteis ao mesmo tempo, já que tocava em igrejas de forma mais acústica e intimista.

Mauro Henrique e Juninho Afram

O céu se abriu em 2008 quando o multi-instrumentista, produtor e cantor brasiliense Mauro Henrique entrou para a banda. Mauro domina como poucos as técnicas vocais, como melisma, drives, falsetes, etc. É um músico tão completo que elevou o nível do grupo de tal forma a fazer Juninho declarar que somente após a entrada dele conseguiu fazer a banda soar do jeito que ele sempre sonhou. O time de primeira foi formado ainda pelos excelentes Alexandre Aposan na bateria, Jean Carllos no teclado e Duca Tambasco no baixo. Logo no primeiro trabalho com a voz de Mauro e a dinâmica musical mais influenciada pelo metal, o álbum Depois da Guerra ganhou um certificado de ouro da ABPD pelas vendas e faturou um Grammy Latino em 2009. Não foram poucas as comparações com o Dream Theater na época.

Em 2012, meses antes de embarcarem em uma viagem para Londres a fim de gravar e produzir o trabalho seguinte, a esposa de Mauro faleceu após uma batalha contra o câncer. Os relatos e vídeos disponíveis no youtube de Mauro ao lado de Jacky Dantas são surpreendentes. Em meio a toda dificuldade que atravessavam, ambos não perderam a fé. Estavam felizes, agradecendo pela oportunidade de aprender com o momento de dificuldade e cantando juntos no hospital. Boa parte disso serviu de inspiração e está impresso em Histórias e Bicicletas. Um álbum dedicado à falecida esposa de Mauro onde, além de guitarras raivosas, brilham letras com mensagens positivas de superação, melodias certeiras, e uma ótima produção da própria banda.

Diz” abre o trabalho já querendo impressionar com um riff de peso e uma ótima bateria de Alexandre. Logo após, “Água Viva” se mostra uma das melhores canções da história da banda em termos de harmonia e peso, a linha vocal forte de Mauro é acompanhada por um coro do tecladista Jean e do líder Juninho. Ao final desse moderno petardo, melodias singelas de piano aparecem sozinhas, iniciando o clima para a próxima canção do disco: “Encontro” é a minha faixa predileta. Uma levada instrumental crescente com um refrão sentimental e grudento. Ainda é embelezada por um interlúdio com uma poesia declamada por Roberto Damasio. Essa sequência inicial de três canções fortes é um grande destaque.

Capa do último álbum da banda

Também quero ressaltar a canção “Confiar”, uma balada cantada ao violão que vai adquirindo peso em uma dinâmica do tipo metal progressivo. “Compartilhar” mostra toda habilidade de Juninho com o melhor solo de guitarra do álbum. “Descanso”, outra linda balada, certamente é a faixa mais emotiva do trabalho. Foi composta por Mauro e Jacky (assista aqui a explicação de Mauro e uma versão ao violão) enquanto estavam imersos no hospital, os versos de superação e a melodia tocante falam por si só. E o ótimo cover de Dennis Jernigan, “Save From Myself”, que consolida Mauro cantando em inglês e fecha o trabalho com chave de ouro e um clima pra cima.

Percebe-se que nas canções pesadas o baixo de Duca esteve mais presente que no último álbum. O entrosamento da banda melhorou ainda mais em relação ao trabalho anterior. Deu vazão a outro repertório de ótimas canções em que a técnica e a melodia chamam a atenção. Tanto pela história de superação que o cerca, quanto pela produção de bom gosto e a possibilidade de ser definitivamente o último álbum do grupo, Histórias e Bicicletas é um excelente disco de rock n’ roll que merece ser ouvido atentamente.


Boletim do JF ® é feito por Jorge Felipe Coelho.

Instagram@boletimdojf e @jorgefelipe_jf / E-mailboletimdojf@gmail.com

Este post tem um comentário

  1. Entendo o ponto de vista do autor, mas a crítica soa um pouco incoerente, pois álbuns como “The Circle” e “What About Now”, lançados ainda com Richie Sambora na banda, apresentam os mesmos elementos de “This House Is Not For Sale” que foram criticados no texto. Não é como se tivesse uma mudança abrupta de orientação musical no Bon Jovi após a saída de Richie Sambora – essa mudança já estava acontecendo há um bom tempo. E o pivô dessa mudança é outro. Chama-se John Shanks, guitarrista e produtor que tornou-se co-autor de várias músicas do Bon Jovi nos últimos 15 anos (inclusive, quando Sambora ainda estava na banda). Abraço!

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