Boletim do JF #06

Boletim do JF #06

UMA JOIA RARA DO BLUES-ROCK CHAMADA JOANNE SHAW TAYLOR

Quem ouve o som feito por Joanne Shaw Taylor logo percebe nuances de Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan, seus maiores inspiradores a barbarizar com a guitarra nas mãos desde o início da adolescência. O mérito inicial, entretanto, é de seu pai que chamava a atenção da filha, ainda criança, tocando Deep Purple e Thin Lizzy em casa. Foi essa pegada blues-rock que fez a inglesa ser descoberta aos 16 anos por Dave Stewart, do Eurythmics, e levada para trabalhar com ele.

Lançado em 2009 pela Ruf Records, White Sugar (de audição recomendadíssima) é seu debute de dez canções realmente açucaradas – como diz o nome – em suas próprias influências pessoais. Impossível ouvir a ótima faixa título e não lembrar de Stevie Ray Vaughan, a canção “Time Has Come” é um blues “raíz” capaz de causar inveja a Albert Collins. Confira no vídeo a seguir uma performance ao vivo:

Dominando totalmente seu instrumento, Joanne também brilha no álbum com sua linda voz grave, rasgada e bem colocada. Para isso, também investiu em uma linha soul music, como é o caso de “Just Another Word” e “Heavy Heart”.

Com um trabalho de estreia que atingiu a 8ª posição nas paradas de álbuns de blues da Billboard nos EUA e que servia como uma credencial de suas habilidades, não tardaria para a guitarrista começar a ter sucesso no meio “bluesy”. A publicação especializada britânica Blues Matters! elogiou Joanne chamando-a de “a nova cara do blues”. Após Diamonds in the Dirt, o segundo trabalho com a veia blues-rock puro, Joanne ganhou o prêmio de melhor vocalista feminina no British Blues Awards em 2010 e 2011, além do prêmio de compositora do ano por sua música “Same As It Never Was”, uma balada do álbum.

Joanne Shaw Taylor

Dentro de um estilo musical de habilidades audaciosas com a guitarra onde predominam circuitos em clubes e teatros, seus longos cabelos loiros ganharam uma aparição global em um concerto para o Jubileu de Diamante (60 anos de reinado) da rainha Elizabeth, realizado no lado de fora do Palácio de Buckingham, na Inglaterra, em 2012. A estrela do blues foi recrutada por Annie Lennox, ex-Eurythmics, para conduzir a guitarra no hit do duo oitentista “There Must Be An Angel (Playing With My Heart)” usando um grande par de asas de anjo em frente a uma multidão. Foi até elogiada por Stevie Wonder, que adorou o timbre limpo de seu instrumento.

Desde que tocou para o maior público de sua vida até 2016, Joanne produziu os álbuns Almost Always Never, Songs From The Road (ao vivo), The Dirty Truth e Wild, que se tornou sua primeira entrada no top 20 da parada de álbuns do Reino Unido. Observando a crescente carreira da guitarrista, a Sony Music trouxe Joanne para seu casting de artistas em 2018.

No primeiro álbum da nova parceria saído em 2019, Reckless Heart, ainda que predomine mais o rock direto e menos o blues-rock de outrora, seu DNA “blueseiro” é altamente perceptível. É o caso da própria faixa de abertura “In the Mood”. O trabalho combina grooves vintage com um toque moderno e Joanne mostra seus vocais mais poderosos. O single “Bad Love” também teve um videoclipe lançado, confira abaixo:

Já em 2020, Joanne lançou um EP com 5 faixas blues que complementam seu primeiro álbum pela Sony, a compilação se chama Reckless Blues. Apenas em seu primeiro trabalho por uma grande gravadora e com toda versatilidade que passeia entre rock, soul e blues, é certo que iremos ouvir falar mais em Joanne Shaw Taylor futuramente. Deixo abaixo algumas recomendações de músicas que comprovam sua habilidade musical e servem para abrir o apetite de um iniciante na audição dessa joia rara do blues-rock:

Blues: White Sugar, Time Has Come, Blackest Day / Soul: Just Another Word, Beautifully Broken, Same As It Never Was / Rock: Going Home, Wanna Be My Lover, No Reason To Stay, In the Mood.

Enjoy!


NIGHTWISH LANÇA O ÁLBUM HUMAN. :II: .NATURE, SAIBA CURIOSIDADES DA GRAVAÇÃO

Nas plataformas de streaming já se encontra disponível para audição Human. :II: .Nature, novo trabalho do Nightwish lançado pela Nuclear Blast. Esse é o segundo álbum de estúdio com Floor Jansen nos vocais principais desde que a cantora entrou no grupo em 2012, ainda como integrante de turnê. Kai Hahto, efetivado como baterista da banda, Tuomas Holopainen (teclados) Emppu Vuorinen (guitarra), Marco Hietala (baixo, vocais) e Troy Donockley (vários instrumentos) completam o time de metal sinfônico.

Human. :II: Nature foi lançado como um álbum duplo de 17 faixas. O primeiro disco traz 9 canções abordando temas existenciais da humanidade, já o segundo possui apenas uma canção, dividida em 8 partes, em que o tema são aspectos da natureza. Os singles “Noise” e “Harvest” integram o primeiro disco e já eram conhecidos do público.

Capa do novo álbum

Após o lançamento de Endless Forms Most Beautiful, Tuomas Holopainen chegou a declarar que sua inspiração havia sido esvaziada, tamanho esmero na produção do álbum de 2015. O líder do Nightwish usou o ano de 2017 para se dedicar ao trio Auri, projeto paralelo que integrou com sua esposa, a cantora Johanna Kurkela, e Trey Donockley.

Holopainen achou fundamental essa nova experiência, pois as “portas da criação se abriram” para ele. Assim conseguiu escrever novo material para o Nightwish, e em julho de 2018 estava com cerca de 80% do álbum composto. A ideia era finalizar a turnê em andamento, começar as gravações em julho de 2019 e lançar o material na primavera de 2020.

Nightwish 2020

Em outubro de 2019, a vocalista Floor Jansen afirmou ter finalizado as gravações dizendo estar muito feliz com o resultado. A mixagem foi feita por Holopainen, Tero Kinnunen e Mikko Karmila, e a masterização por Mika Jussila, no Finnvox Studios. Em janeiro de 2020, Holopainen confirmou que a produção havia terminado, divulgando o título do novo álbum, a capa e outros detalhes. Após grande espera, finalmente todo esse processo musical está disponível ao público. Veja abaixo o tracklist completo:

Disco 1

01.Music
02. Noise
03. Shoemaker
04. Harvest
05. Pan
06. How’s The Heart?
07. Procession
08. Tribal
09. Endlessness

Disco 2

  1. All The Works Of Nature Which Adorn The World – Vista
    02. All The Works Of Nature Which Adorn The World – The Blue
    03. All The Works Of Nature Which Adorn The World – The Green
    04. All The Works Of Nature Which Adorn The World – Moors
    05. All The Works Of Nature Which Adorn The World – Aurorae
    06. All The Works Of Nature Which Adorn The World – Quiet As The Snow
    07. All The Works Of Nature Which Adorn The World – Anthropocene (incl. “Hurrian Hymn To Nikkal”)
    08. All The Works Of Nature Which Adorn The World – Ad Astra

CORONAVÍRUS: UMA CHUVA DE “LIVES” TOMA CONTA DA WEB

Um dos resultados diretos da pandemia do coronavírus, que saiu da China e se alastrou pelo mundo, é o cancelamento de praticamente todos os eventos musicais agendados. Ao longo desse período de afastamento social, os artistas começaram a buscar alternativas de proximidade com o público. Desde então, o instagram e o facebook passaram e ser o habitat diário de músicos na contramão do tédio da quarentena para produzir conteúdo.

As transmissões ao vivo (Lives) começaram a ser feitas de forma tímida, eram músicos solitários e sozinhos na sala de suas casas com seus instrumentos tocando canções de forma simples buscando interação. A coisa toda cresceu de tal forma que hoje já temos programação oficial das Lives diárias com horários de apresentação dos artistas, o que começou a ser motivo de piadas na web e mais: críticas severas aos artistas que contrariam as recomendações de isolamento na promoção de shows altamente estruturados com equipes diretamente de suas casas.

A esta altura, estariam os artistas arrumando meios de diminuir a distância social (com responsabilidade) para interagir com seus fãs ou isso já ficou para trás e chegamos ao ponto da competição feroz pela audiência nas Lives diárias? O cantor Marcelo Falcão, ex-vocalista do O Rappa, foi um dos primeiros a botar o dedo nessa ferida. Para ele, o caminho seguido pelas Lives já fugiu do propósito inicial e se tornou uma disputa. Recentemente o músico manifestou-se assim no twitter:

“Essa parada de Live é uma coisa pra ser de coração como se fosse uma roda de amigos numa Vibe boa. Virou competição. Levar um Som pra alegrar esse momento difícil é a parada. Música não é competição de quem ostenta mais.”

Cabe lembrar que há artistas nacionais que ultrapassaram a marca de milhões de expectadores com a superprodução de suas transmissões ao vivo realizadas por um time de pessoas. O que os leva a serem sucesso de audiência, mas ao mesmo tempo negligentes para com o momento atual e o risco de propagação de um vírus de baixa letalidade mas altamente contagioso. Outra crítica observada é em relação às doações, já que alguns músicos anunciam contribuições em suas apresentações, mas que na verdade são feitas por fãs ou patrocinadores, não por eles mesmos.

Ainda que haja diversos estudos produzidos e ainda em produção sobre diferentes modalidades de isolamento social, e especialistas que defendem cada uma dessas correntes distintas de pensamento sobre a questão, eu passo ao largo da seara tecno-científica. Prefiro citar o exemplo de Live que demonstra autenticidade e desafio musical na busca pelo entretenimento e diversão à distância. Ela foi realizada por Sammy Hagar & The Circle.

Jason Bonham (bateria) iniciou a brincadeira em sua casa e gravou com o próprio celular uma linha de bateria. Após isso, repassou o vídeo ao seu companheiro de banda Vic Johson (guitarra) que fez o mesmo. Os vídeos com a linha de bateria e o riff de guitarra foram encaminhados para Michael Anthony (baixo) criar sua parte e finalmente chegarem até o ex-vocalista do Van Halen, Sammy Hagar. Ele improvisou uma letra e embrulhou o pacote. O resultado criativo da interação foi batizado de Funky Feng Shui, confira no vídeo abaixo:


ÁLBUM RECOMENDADO: “FERAL ROOTS”, DO RIVAL SONS

Mantendo o produtor Dave Cobb, o quarteto norte americano Rival Sons lançou seu primeiro álbum por uma grande gravadora. Feral Roots (Atlantic) saiu em 2019 e processa muito bem as conhecidas influências de Jay Buchanan (vocais), Scott Holiday (guitarra), Dave Beste (baixo) e Mike Miley (bateria). O que se ouve é um mix de hard rock e blues, com um som guiado por riffs de guitarra que também explora pitadas acústicas.

Esse é o sexto álbum do grupo que, desde o segundo (Pressure & Time), já dava pra mostras de que iria ser diferenciado. Desde 2009 chamando atenção por seu som meio “classic rock remodelado”, já foram convidados para acompanhar turnês de Alice Cooper, AC/DC, Kiss, Sammy Hagar, Aerosmith, Deep Purple e Black Sabbath. Esse que vos escreve, por exemplo, sofreu de raiva por não chegar a tempo de conferir o show todo da banda na abertura para o Black Sabbath em sua turnê final, no Rio de Janeiro, em 2016.

Feral Roots: sexto álbum do Rival Sons

Feral Roots é composto por 11 canções de letras confessionais que abordam o reconhecimento à natureza existente em cada um de nós. O trabalho mostra uma excelente dinâmica musical, alternando momentos pesados e acústicos, embelezados por backing vocals femininos. De longe, minha preferida no álbum é “Too Bad, onde um riff poderoso dá consistência para um refrão com alta carga dramática. A faixa título traz um clima parecido com a fase mística do Lez Zeppelin, mas sem soar como cópia. A abertura com “Do You Worst traz elementos indie, seguidos pelo hard rock com influências funk de “Sugar on the Bone.

Um instrumental abre a faixa “Look Away, que possui belas variações rítmicas sendo outro ponto alto do disco. Feral Roots também reserva momentos para dançar, este é o caso de “Stood By Me e “Imperial Joy”, onde backing vocals ajudam a conduzir grooves muito bem construídos. O álbum encerra de forma maravilhosa com uma canção soul chamada “Shooting Stars“.

Rival Sons ao vivo

Confesso não ter dado a devida atenção a esse lançamento na época, mas ainda bem que sempre podemos revisitar e exaltar as grandes obras. Com uma audição que se mostra acima da média, Feral Roots é o melhor trabalho da banda. Sob uma voz intensa, harmonias e melodias criativas muito bem arranjadas desenham uma progressão em relação ao caminho musical dos discos anteriores. O álbum elevou o nível do grupo.

Em uma época que muito se falava do Greta Van Fleet e seu som requentado, o Rival Sons buscou as mesmas referências dos anos 70 e, sem parecer uma cópia, criou algo próprio e único. Nada se compara ao frescor de uma banda se superando a cada lançamento, em plena ebulição criativa. Álbum indicado para qualquer amante de rock n’ roll.


Boletim do JF ® é feito por Jorge Felipe Coelho.

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