Boletim do JF #03

Boletim do JF #03

*Essa coluna foi originalmente publicada no dia 19/02/2020.

QUADRA: A CONSOLIDAÇÃO DO NOVO SEPULTURA

Melhor álbum em 20 anos, Sepultura mais sólido que nunca, um tapa na cara das viúvas Cavalera, etc. Tudo isso e mais um pouco tem sido falado após o Sepultura estremecer as estruturas do cenário musical com o lançamento de Quadra, décimo quinto álbum de estúdio da banda brasileira mais famosa no exterior.

The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart e Machine Messiah, de 2013 e 2017 respectivamente, foram entendidos como álbuns de afirmação rumo a um novo caminho. Por isso, existe quem diga que o terreno de preparação para a chegada de Quadra já estava sendo meticulosamente pavimentado por Andreas Kisser há tempos. Ao observar atentamente o contexto do momento, é exatamente o que acredito.

Ambiciosamente planejado para ser grandioso, o novo álbum do Sepultura procurou consolidar definitivamente a banda em sua nova identidade sonora. Ao longo de pouco mais de 50 minutos, temos um Sepultura que utiliza grooves percussivos, passagens em arranjos de violão clássico, sinfonias e o cantor Derrick Green explorando seu vocal de forma mais melódica como nunca o fez antes. Mas calma, tudo isso a cabo de muitos riffs pesados, solos de guitarra espetaculares e o monstro Eloy Casagrande descendo o braço em seu kit percussivo para trazer várias soluções rítmicas.

Com a produção de Jens Bogren na Suécia, as 12 faixas foram divididas em quatro seções de 3 músicas. Ou seja, o álbum é conceitualmente dividido em quatro partes (como um LP em vinil duplo). Isolation abre a primeira parte, mais pesada, como a explosão de uma bomba. Um ótimo trash metal com toques progressivos que já havia sido mostrado ao vivo em 2019 no festival Rock in Rio. Capital Enslavement dá o tom do que será a segunda parte do álbum, com muito groove em uma parede sonora visceral. Destaque desse segundo quarto do disco, Raging Void tem um ritmo experimental e fecha a primeira metade do álbum. Contudo, o melhor ainda está por vir.

Dedilhados eruditos ao violão em Guardians of Earth abrem a terceira parte do álbum. Nesse ponto, as faixas começam a ganhar contornos sinfônicos com orquestrações e coros inseridos de maneira muito competente, servindo como aliados a embelezar o DNA pesado da banda. A parte final, e mais surpreendente, traz a belíssima e quase épica Agony of Defeat, onde Derrick canta de forma pausada e mais melódica. No encerramento, com a primorosa e sombria Fear; Pain; Chaos; Suffering, Emmily Barreto (da banda Far From Alaska) participa dando toque feminino aos vocais.

A segurança do veterano Paulo Jr. no baixo, a técnica apuradíssima e ovacionada de Eloy Casagrande na bateria, a reinvenção de Derrick Green nos vocais e a liderança de Andreas Kisser nas guitarras mostraram as quatro faces do Sepultura: trash metal, groove metal percussivo, metal progressivo e metal sinfônico. Após a conturbada fase no início dos anos 2000, o Sepultura consolidou sua reinvenção de modo espetacular e voltou a atrair a atenção do mundo. Quadra é a maior prova disso.


ELTON JOHN CHORA AO PERDER A VOZ

No último dia 16, Elton John interrompeu o show que realizava em Auckland, na Nova Zelândia, e saiu amparado aos prantos. Para justificar a perda da voz, o músico revelou em suas redes sociais que havia sido diagnosticado com pneumonia atípica, estágio leve da doença que pode causar dor no peito, tosse e febre, semelhante a um resfriado

A apresentação já estava em sua 16ª música, Elton executava Daniel, um soft rock de 1973, quando o desconforto pela rouquidão forçou o cantor a abreviar o concerto. Aos 72 anos, Elton John é outro medalhão da música que está em sua turnê de despedida dos palcos. Desde o fim de 2018, a Farawell Yellow Brick Road passa por todos os continentes em cerca de 300 apresentações. A intenção, segundo Elton, é que todos os fãs possam ter a oportunidade de ficar com lembranças felizes de uma despedida, já que irá se dedicar à família.

Elton é humano, foi derrotado. Porém é confortante notar que saiu do palco em meio a fortes aplausos dos fãs presentes no Mount Smart Stadium. Prestando solidariedade ao ídolo, o público pagante ainda cantou a versão original de Don’t Go Breaking My Heart, inserida pela produção logo após a saída de Elton. Confira no vídeo a seguir:

Gestos assim suplantam maiores explicações, pois comprovam que a música transcende, comunica e eleva os indivíduos. O respeito pela obra e carreira de um gigante da música como Elton, que doou sua vida ao ofício artístico, permanece inabalado.


APÓS HOMENAGEAR LED ZEPPELIN, NOVA ORQUESTRA CRIA O CONCERTO “IRON SINFÔNICO”

Sendo regida pelo maestro Eder Paolozzi e com mais de 30 jovens músicos, a Nova Orquestra cria o espetáculo “Iron Sinfônico”. O projeto remodela clássicos do Iron Maiden transformando linhas de vocal, guitarra, baixo e bateria em violinos, violas, violoncelos oboés etc. Uma completa viagem sinfônica com o repertório de uma das bandas mais importantes do mundo.

Com uma nova visão de mercado focada no público jovem e buscando se distanciar do ar burocrático da música clássica, Bruno Freitas e João Magalhães idealizaram a Nova Orquestra como algo diferente do que se vê habitualmente em termos de orquestrações. A ideia é homenagear grandes artistas fazendo um mix com rock, pop, rap, ou mesmo samba, criando uma música de qualidade para que todos possam se divertir.

Além de já ter se apresentado no Palco Sunset da última edição do Rock in Rio no país, a Nova Orquestra também esteve em sua primeira turnê nacional por Porto Alegre, Brasília, Rio e São Paulo com o espetáculo “Led In Concert”, celebrando os 50 anos da banda inglesa Led Zeppelin.

O novo concerto também chega como uma forma de celebração pelos 45 anos de existência do Iron Maiden em 2020, com data marcada no Rio de Janeiro para 01/08 na Jeunesse Arena.


CURIOSIDADE: POR QUE AS PESSOAS GOSTAM TANTO DE GUNS N’ ROSES?

Às vésperas de mais uma apresentação no país, dessa vez no festival Lollapalooza, em São Paulo, o Guns N’ Roses pode ser entendido como um dos casos de popularidade mais singulares da história do rock n’ roll. No Brasil, o grupo continua sendo um dos que possui o maior número de fãs, ainda hoje figurando entre os recordistas em audições nas plataformas digitais.

A banda possui, fundamentalmente, dois álbuns primorosos: Appetite for Destruction, de 1987, e Use Your Illusion, de 1991. Este último, lançado em dois volumes. Há quem diga que funcionaria melhor em uma edição simples, mas não é o foco da análise aqui. O fato é que a discografia do grupo ainda possui dois álbuns de menor expressão. GN’R Lies é uma composição do EP independente de 1986 com algumas poucas canções acústicas, e The Spaghetti Incident? É um álbum de covers de bandas punk dos anos 70 e 80 que fechou a tampa da era clássica do grupo em 1993.

Após isso, ao longo de 15 anos, Axl Rose passou pelos mais variados tipos de problemas legais, internações, prisões e tudo mais, até encontrar outros músicos, formar um novo grupo e gastar absurdos 13 milhões de dólares para lançar em 2008 o seu “quase álbum solo” Chinese Democracy. Outro fato é que o Guns N’ Roses retornou com sua formação clássica (exceto por Izzy Stradlin e Steven Adler) em 2016, está em turnê mundial desde então com Axl sem voz e sem lançar material novo algum. Podemos dizer que a formação clássica não lança trabalho original desde Use Your Illusion, em 1991. Pasmem, faz 29 anos!

Repercutindo esses e outros fatos sobre o Guns N’ Roses, o músico e youtubber Rodrigo Flausino foi a uma grande exposição sobre a banda que está acontecendo até 8 de março no shopping Anália Franco, em São Paulo. Lá, conferiu itens relacionados ao grupo e conversou com fãs da banda em busca do entendimento da curiosa e incrível popularidade do Guns ao longo de décadas sem trabalhos novos. Segue o vídeo abaixo:

O Guns N’ Roses se tornou lendário ao marcar toda uma geração com música, estilo e atitude. À parte brincadeiras com a voz esgotada do Axl “Mickey” Rose e mesmo não gostando dos shows atuais, eu adoro a banda da era antiga e sua musicalidade. Considero o Slash um mestre das melodias, a alma do som original da banda, e concordo com o Rodrigo, pois acho que eles não precisaram de uma discografia extensa para serem tão marcantes no mundo do rock n’ roll. Realmente um caso raro.

Agora deixe-me viajar escutando pela milésima oitava vez, desde 1991, a “belezura sensual” que é o solo de November Rain. Certamente vai tocar daqui a pouco em uma rádio por aqui.


ÁLBUM RECOMENDADO: “NEON DESERT”, DO NEON DESERT

Com influências que passam pelo stoner rock do Queens of the Stone Age, o rock alternativo do Foo Fighters e o metal do Black Sabbath, a banda independente carioca Neon Desert realizou um bom trabalho de estreia.

Auto intitulado, o álbum do grupo saiu no final de 2018 e foi gravado no LF Studios, no Rio de Janeiro. Lucas Pereira (vocal), Ted Hoppus (baixo e guitarra) e Luis Felipe (bateria) gravaram e produziram todo o trabalho.

Em 2019 o trio contou com a presença de Felipe Ramos, da banda Pedras Pilotáveis, como guitarrista nos shows. Ao chegar entre os finalistas que participaram em um concurso para a abertura do show de Brant Bjork (ex-Kyuss) em São Paulo, cavaram a entrada no selo voltado ao stoner rock Abraxas.

Neon Desert traz, em dez canções, um som orgânico e pesado ao mesmo tempo. Fortes e marcantes linhas de bateria servem de suporte para riffs de guitarra pesados sob o vocal melódico em inglês de Lucas.

Influences e Fool’s Choice remetem ao Foo Fighters – a última com viradas de bateria que lembram o hit Best of You. Em Please Don’t Shoot Me With My Own Gun a pentatônica rola solta em riffs guitarreiros com a cara de Tony Iommi. O single House of Matches, primeiro clipe da banda, é conduzido por uma melódica linha de baixo que cresce no refrão com os vocais dobrados.

Fica a recomendação para conferir o caldeirão de boas influências musicais que é o trabalho da Neon Desert, disponível nas plataformas de streaming Spotify e Deezer.


Boletim do JF ® é feito por Jorge Felipe Coelho.

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